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Muhammad Ali ensina a viver

May 29, 2010 - por Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

Talvez toda doença resulte de uma falha de comunicação entre a mente e o corpo. Isso é certamente verdadeiro em uma doença tão rápida quanto o nocaute. A mente não consegue mais transmitir uma palavra sequer aos membros. O extremo dessa teoria, exposta por Cus D´Amato quando treinava Floyd Patterson, é que um pugilista com desejo autêntico de vencer não pode ser nocauteado. (…) O soco pode machucar, mas não é capaz de liquidá-lo.

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Hoje em dia é como se Muhammad Ali levasse essa idéia a algum lugar avançado, onde pudesse assimilar socos mais depressa do que os outros lutadores, onde pudesse literalmente transmitir o choque através de uma quantidade maior de partes do corpo ou dirigi-lo para o melhor traçado, como se estivesse trabalhando em busca da habilidade de receber aquela combinação de cinco (ou seis ou sete!) golpes e ainda assim estar pronto para enviar o impacto para cada braço, cada órgão, cada perna, de modo que o castigo pudesse ser digerido e a mente mantida clara. Observar Ali tomar socos era um aprendizado. Ele se deitava nas cordas e jabeava em direção ao sparring como uma gata que afasta seus gatinhos.

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Ali estudava todo o tempo como amortecer tais choques ou como castigar a luva que o transmitia, sempre elaborando sua compreensão íntima de como neutralizar, enfraquecer, modificar, enganar, encurvar, desviar, distorcer, defletir, inclinar e cancelar as bombas atiradas contra ele e fazê-lo com um mínimo de movimento, deitado nas cordas, as mãos erguidas languidamente. Invariavelmente treinava em um cenário que o mostrava fatigado ao extremo, cansado demais para erguer os braços no décimo segundo assalto de uma luta de quinze.

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De seu corner, gritavam-lhe “Pare de brincar”. Os jurados descontavam-lhe pontos por deitar nas cordas, os comentaristas escreviam que ele não parecia o velho Ali e o tempo todo o que ele fazia era refinar métodos.

Norman Mailer – A LUTA.

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Maturidade para principiantes

May 27, 2010 - por Alexandre Rodrigues · 2 Comments

No café do McDonald´s perto do trabalho que freqüento desde o verão, se reúne um grupo de velhos. Os velhos do café do McDonald´s costumam passar lá a tarde, ocupando quase sempre as quatro mesas que ficam em frente à vitrine. Conversam. Falam sobre tudo. Sobre a existência, os jovens, a suposta falta de princípios e de educação dos jovens, a solidão, a velhice.

O café está sempre cheio, mas os velhos nunca são perturbados. Estão sempre em quatro ou cinco. Há três que se repetem. Outros aparecem de vez em quando. Só um deles usa os cabelos pintados. Só um deles usa tênis.

Só sei o nome de um deles: é o Poeta João. O Poeta João é um careca-cabeludo meio assustador. Sempre carrega um caderno. Às vezes senta-se em outra parte da lanchonete, separado dos outros, escrevendo. Sei seu nome porque um dia uma mulher muito bonita adentou o café perguntando:

- O Poeta João? Você viu o Poeta João? É bonito e se veste bem.

Os velhos do McDonald´s costumam buscar inspiração na rua. Olham a rua e comentam o que acontece. Às vezes parecem que estão no Twitter, cada um dando a própria opinião sem muita interação com o que os outros estão dizendo.

Hoje tiveram o melhor de todos os diálogos. Sobre a passagem do tempo.

Velho 1 (cabelos pintados): – Naquela época era tudo distorcido.

Velho 2: – Distorcidas.

Velho 3: – Antigamente era proibido suar. Lembram?

Velho 2: – Era.

Velho 1: – Tinha que usar aquela camisa de física por baixo. Um suadouro.

Velho 3: – Diziam para ficar andando no vento.

Velho 1: – E tinha que tomar purgante. Já deixava pronto um copo de suco de laranja ou de limão para tomar junto. Agora dão purgante que a criança até gosta.

Velho 2: – Uma vez eu levava para casa um litro de querosene (tinha que carregar pendurado no barbante) para casa. Tinha tomado purgante. Inventou de descer tudo.

Velho 3: – Capivarol era feito de capivara?

Velho 1 cantarola o jingle do remédio Phymatosan.

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Manias

May 25, 2010 - por Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

O blog de Michel Laub, um dos melhores sobre literatura, faz uma série sobre os rituais e manias de 100 escritores brasileiros ao escrever. Pus os meus. Aqui.

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É amanhã

May 25, 2010 - por Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

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Morte ao vivo

May 19, 2010 - por Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

Eu avistei o general Khattiya enquanto ele cumprimentava apoiadores na quinta-feira dentro do acampamento que os manifestantes construíram no centro de Bangkok.

Ele permaneceu por pelo menos meia hora em um ponto perto de uma barricada improvisada de pneus e estacas de bambu, respondendo a perguntas de um grupo de jornalistas.

Às 6:50, os outros repórteres tinham se afastado, permitindo que eu e minha intérprete fizéssemos perguntas. O que acabou sendo a minha última foi sobre o provável resultado de uma repressão militar. Seria o exército capaz de penetrar as fortificações dos manifestantes?

“O Exército não pode entrar aqui”, respondeu o general Khattiya.

Depois, houve um grande estrondo, e ele caiu de costas no chão. Não houve nenhum grito, nenhum sinal de agonia, apenas seu corpo dobrado em uma placa da calçada com os olhos abertos.

Pelo que pude ver, a bala atingiu o general Khattiya em algum lugar no alto da cabeça, perto da interseção da têmpora e a testa. O general estava diante de mim, assim, meu melhor palpite é que o tiro veio de trás de mim, possivelmente a partir de um atirador em algum lugar na área de negócios através de uma estrada movimentada.

Quando a calma retornar às ruas de Bangkok, os peritos balísticos provavelmente farão uma investigação mais precisa.

Impressionante relato de Thomas Fueller, do New York Times, sobre como foi ver diante de si o assassinato do general Khattiya Sawatdiphol, líder dos protestos na Tailândia.

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Muhammad Ali faz poesia

May 17, 2010 - por Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

Do mesmo jeito como um presidiário que cumpre uma longa sentença passa a viver em desespero a partir do momento em que reconhece que o esforço de manter a sanidade diminuirá sua humanidade, o boxeador também atravessa algo parecido. Tanto o prisioneiro como o boxeador precisam abandonar alguma parte do que têm de melhor (pois o melhor de qualquer ser humano não é mais adequado para a prisão – ou o treinamento – do que um animal é para o jardim zoológico). Mais cedo ou mais tarde o boxeador reconhece que algo em sua psique paga caro demais pelo treino. O enfado não está apenas amortecendo sua personalidade como matando sua alma.

(…)

Finalmente Ali pôs as páginas de lado. Acenou para o auxiliar obediente. O poema ocupava três páginas. “Quanto tempo demorou para escrever?”, perguntaram-lhe. “Cinco horas”, respondeu – Ali era capaz de falar à taxa de trezentas novas palavras por minuto. Devido ao fato de o respeito ser pelo homem, pelo homem integral, incluindo o talento literário (da mesma forma que se estaria pronto a respeitar os guinchos que Balzac pudesse extrair de uma flauta, caso isso fosse revelador de alguma fibra de Balzac – uma certa fibra, de todo modo), surgiu na mente a imagem de Ali, lápis na mão, compondo a partir das profundezas da reverência negra pela rima – aquelas ligações misteriosas no universo do som: jamais uma rima sem um motivo oculto. Será que as rimas de Ali ajudavam a moldar a disposição do futuro ou ele apenas se sentava depois do treino e, devagar, juntava uma linha besta atrás da outra?

Das primeiras páginas de A LUTA – Norman Mailer.

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Filosofia

May 9, 2010 - por Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

A vida é uma viagem transcorrida quase sempre em um navio de loucos.

Lêdo Ivo, na edição de Moby Dick da coleção Clássicos Francisco Alves.

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Barba Azul

April 2, 2010 - por Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

Ainda assim, insisti em que merecia ter a Síndrome do Sobrevivente, como meu pai, e então ela me fez duas perguntas. A primeira foi essa:

- Você acredita, às vezes, que é uma boa pessoa em um mundo onde quase todas as outras boas pessoas estão mortas?

- Não.

- Você acredita que às vezes precisa ser mau, já que todas as boas pessoas estão mortas, e que o único jeito de limpar seu nome é estar morto também?

- Não.

- Você pode merecer a Síndrome do Sobrevivente, mas não a adquiriu – disse ela. – Não quer tentar tuberculose no lugar?

(Publiquei isso ano passado também)

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A entrevista como uma das belas artes

April 2, 2010 - por Alexandre Rodrigues · 1 Comment

Trechos da entrevista de Antonio Abujamra ao jornal O Povo, de Fortaleza.

OP - Você tem medo de alguma coisa?
Abujamra - Blá! Blá! Blá!

OP - O seu personagem provocador não tenta um pouco assustar as pessoas?
Abujamra - Fala mais alto! Eu sou surdo. Além de tudo isso, eu sou surdo.

(….)

OP - Na hora de uma entrevista, você é um ator também?
Abujamra - Vai tomar no teu cu, antes que eu me esqueça. Eu sei lá se eu sou ator ou se eu não sou. (…)

OP - Você não tem mais esperanças?
Abujamra – Nenhuma. Eu quero que a esperança vá tomar no olho do cu dela. Não tem mais nenhuma.

(…)

OP – Quando você percebeu que estava velho?
Abujamra – Eu devia ter uns 15 anos. Eu sou um velho. Eu lia demais. Eu ficava lendo, lendo. Por isso envelheci. Eu sei lá quando eu era velho. Velho é quando começa a baixar o pau. Sei lá, um dia eu sentei nas bolas e percebi que estava velho. (…) Acabou a entrevista?

OP - Ainda não!
Abujamra - (…) Olha para o fotógrafo) O Cartier Bresson, você vai encher muito meu saco ainda? (Pega uma batata-frita e a coloca na altura do pênis e posa para o fotógrafo). Gosto de fazer caretas.

OP - Por que você odeia tanto as coisas?
Abujamra - Quem disse que eu odeio? Não é assim, eu odeio as coisas. Eu sempre fui bem claro. Eu odeio tudo. Não é algumas coisas. Odeio o mar, o ar, vocês. Acho tudo uma bosta nesse país, um lixo. Eu acho odiar uma coisa bem menor do que a vingança. Eu devia me vingar das coisas que acontecem nesse país. Eu só digo que odeio porque as pessoas acreditam que eu odeio.

OP - Quem odeia ama?
Abujamra - Mas é cada pergunta! Vocês tão querendo, né? Vocês vão piorando cada vez mais. Quem odeia ama sim. Ama, trepa, odeia. Ama de novo. Exatamente o que você acha da vida é o que acontece. Gostou? Porra! Tem muita coisa que a gente não sabe responder. Dá para vocês irem embora? A melhor coisa da entrevista até agora foi a batata frita. Geralmente me fazem só três perguntas. Vocês trouxeram um livro. Vão embora!

OP - A gente combinou ser uma hora de entrevista…
Abujamra - Então eu vou dormir aqui. Quando der o tempo, vocês me acordam. Vai seu viadinho, pergunta logo!

(…)

OP – Você se acha superior a outras pessoas?
Abujamra - Acha? Eu não quero achismo.

OP - Desculpa. Você se considera superior a outras pessoas?
Abujamra - Superior? Eu não sou superior a nada. Eu sou um bosta igual a todos. Só que eu vejo as coisas que não me agradam e eu falo. Fui jornalista, fui crítico, fiz tudo na minha vida. Trabalhei em todas as televisões. Fiz 127 peças de teatro. Eu lá vou saber responder essas coisas. Vocês são muito metidos. Aliás, o Ceará é muito metido, sabia? E não tem porra nenhuma. Chega alguém e diz: esse escritor escreveu esse livro recente e é melhor que o Guimarães Rosa. Aqui no Ceará se escreve um poema e acham que mudaram a poesia. Aí eu viajo e comento com alguém. Os caras lá no Ceará escrevem um livro e acham que mudaram a literatura. Alguém responde: “Eles estão certos”. (risos)

(…)

Será que a palavra não é uma coisa muito clara? As pessoas não sabem falar. Elas falam de coisas que não sabem falar e não buscam. Não lêem. Não estudam. Peguem um grande livro, um Joyce, um Kafka, um Proust, um Beckett. Aprendam a ler! Se não dá para não ir ao passado, pega o presente. Existem novos filósofos brasileiros? Não têm! Ou seja, fodam-se. Não me encham o saco. (Pega o gravador e joga longe do local da entrevista. O repórter o recolhe de volta). Levantem-se. Vão embora. Estagiária, vai também. Tchau. Não vou responder mais nenhuma pergunta.

OP – Por que você topou dar essa entrevista, então?
Abujamra - Canalhas! Eu disse “não” 40 vezes. Aí me encheram o saco. “Precisa dar entrevista. É Fortaleza. Blá Blá Blá”. Eu odeio, recusei outra entrevista. Não sei onde apaga essa porra do teu gravador. (Joga de novo o gravador)

OP - Existe alguma…
Abujamra - Vai tomar no cu. Acabou a entrevista. Eu agora só vou responder assim: vão tomar no cu!

OP - Mas tem uma frase…
Abujamra - Vão tomar no cu!

OP - Mas acabou mesmo a entrevista? Queria perguntar mais.
Abujamra - Vai tomar no cu! Nunca falei tanto para jornalista. Lê as outras entrevistas, copia. Tchau! Você é um ridículo fazendo essas perguntas.

(…)

OP – Essa entrevista deu certo ou deu errada?
Abujamra – Você começou a entrevista de novo? Você pode ir embora, eu quero ler os jornais. Tenho 77 anos e não tem entrevista próxima. Eu vou morrer.

OP - Te incomoda a morte?
Abujamra - Eu não agüento vocês. Me incomoda muito. Não, não! Não me incomoda nada. As duas estão certas e aí? Eu não quero responder essas coisas. Tudo o que eu falar, pode escrever o contrário. Não tem importância. Vieram me provocar, então podem ir embora. (A equipe se levanta e segue para fora do hotel. Abujamra grita com os braços erguidos Aleluia! Aleluia! Por favor, terminem a reportagem assim. Aleluia! Aleluia! Aleluia!)

>> Durante a infância, Antonio Abujamra morou em Porto Alegre, onde estudou para se tornar padre ou militar. Possivelmente não foi um bom aluno de matemática.

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Obrigado, O Sul. Copie mais

March 25, 2010 - por Alexandre Rodrigues · 5 Comments

Enquanto vinha de táxi para o trabalho hoje descobri que o jornal O Sul gostou de um texto meu. Imagino que gostou bastante. Tanto que decidiu roubá-lo.

Jornais costumam reclamar da deslealdade da internet em se apropriar de seu noticiário. Mas os sites de notícias sérios aprenderam a se comportar com lealdade à fonte, no mínimo dando o crédito pela informação. No jornalismo na internet, não importa tanto quem publicou primeiro. É uma forma de honestidade dizer ao leitor qual foi a fonte da notícia. O que torna ainda mais escandaloso o que fez O Sul.

No domingo, escrevi para o Terra uma matéria sobre um jornalista-robô inventado no Japão. Tema interessante, nada demais. O Terra não foi o primeiro a tratar do assunto. Como credita a matéria, o site de tecnologia Singularity Hub descobriu-o primeiro, servindo de fonte primária. Mas não foi a única. O próprio Laboratório de Sistemas Inteligentes e o Twitter serviram de base para o texto, reunindo mais informações sobre como funcionava o robô.

Até aí ok. A notícia não é de ninguém. Mas o texto sim. Por isso é escandaloso que a mesma matéria publicada no domingo à noite esteja praticamente na íntegra na página 6 do caderno reportagem de O Sul nesta quinta-feira.

No Terra:

“No futuro, pode se tornar comum o público acostumado a assistir entrevistas comandadas não por humanos, mas por robôs?

A possibilidade tornou-se um pouco mais real com uma invenção apresentada no Japão. Cientistas do Laboratório de Sistemas Inteligentes (ISI na sigla e inglês) da Universidade de Tóquio criaram o que poderá ser chamado de “jornalista do futuro”: um robô.

Desde 2002 pesquisadores americanos trabalham na criação de um robô capaz de exercer a função de jornalistas em situações de riscos, o front numa guerra, por exemplo. Estes, no entanto, são apenas robôs controlados à distância e dependem de ordens de humanos sobre o que fazer. A novidade apresentada em Tóquio é totalmente autônoma.

O robô-jornalista, afirmam os cientistas, é capaz de explorar o ambiente e relatar o que observou. Ao detectar mudanças à sua volta, decide se são relevantes, e então pode fotografá-las com sua câmera integrada.

Montado sobre a estrutura de um segway – meio de transporte de duas rodas criado na década passada -, o robô também é capaz de fazer entrevistas com pessoas e buscar na internet informações que o ajudem a entender o que se passa. Se algo parecer digno de virar notícia, irá escrever um texto e publicá-lo na web.

Em seu perfil no Twitter, Charlie Catlett, pesquisador dos laboratórios Argonne National, nos Estados Unidos, mostrou-se impressionado com o robô, apresentado no encontro mais recente da Sociedade de Processamento de Informação do Japão. “Por combinar o mundo real e pesquisa na internet, o jornalista robô é um passo adiante com relação a outros sistemas automáticos. Espere algum tempo e robôs como esse poderiam se tornar valiosos para a produção de notícias em toda parte”, escreveu a respeito o site de tecnologia Singularity Hub.

Em novembro passado, um programa criado pelo Intelligent Informations Lab, da Universidade Northwestern, mostrou-se capaz – alimentado com as informações – de escrever um texto sobre beisebol sem interferência humana. O jornalista robô japonês leva as invenções a outro nível. É capaz de coletar sozinho as informações. Por um bom tempo jornalistas humanos certamente terão a preferência do público. Mas não dá para negar: ganharam um concorrente”.

Em O Sul de hoje:

Já pensou em assistir a uma entrevista feita por uma máquina? A possibilidade tornou-se mais real com uma invenção apresentada no Japão. Cientistas do Laboratório de Sistemas Inteligentes (ISI na sigla e inglês) da Universidade de Tóquio criaram o que poderá ser chamado de “jornalista do futuro”: um robô.

Desde 2002 pesquisadores americanos trabalham na criação de um humanoide capaz de exercer a função de jornalistas em situações de riscos, o front numa guerra, por exemplo. Esses, no entanto, são apenas robôs controlados à distância e dependem de ordens de humanos sobre o que fazer. A novidade, porém, é totalmente autônoma.

O robô-jornalista é capaz de explorar o ambiente e relatar o que observou. Ao detectar mudanças, decide se são relevantes, e então pode fotografá-las com sua câmera integrada.

Montado sobre a estrutura de um segway – meio de transporte de duas rodas criado na década passada -, o robô também é capaz de fazer entrevistas com pessoas e buscar na internet informações que o ajudem a entender o que se passa. Se algo parecer digno de virar notícia, escreve o texto e publica na web.

Em seu perfil no Twitter, Charlie Catlett, pesquisador dos laboratórios Argonne National, nos Estados Unidos, mostrou-se impressionado com a criação. “Por combinar o mundo real e pesquisa na internet, o jornalista robô é um passo adiante com relação a outros sistemas automáticos. Espere algum tempo e robôs como esse poderiam se tornar valiosos para a produção de notícias em toda parte”, escreveu.

Em novembro passado, uma máquina do Intelligent Informations Lab, da Universidade Northwestern, mostrou-se capaz – alimentado com as informações – de escrever um texto sobre beisebol sem interferência humana. Mas o jornalista robô japonês leva as invenções a outro nível – à coleta de informações.

As diferenças entre um texto e outro são ridículas. Se trata de uma cópia. Plágio vergonhoso. E pior: uma cópia mal feita. Na real, o assunto não é tão importante que mereça algo além de um registro. Mas não custa dizer o tipo de jornalismo que, ao que parece, é feito por O Sul. É defasado (publicou uma matéria quatro dias depois), incorreto (credita ao pesquisador a declaração de um site) e, fundamentalmente, preguiçoso. No mínimo.

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Mais uma dos Massa

March 11, 2010 - por Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

Só mulher pelada – Redenção, 4 de agosto de 2009.

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Homens que choram

February 27, 2010 · 2 Comments

” As cidades à noite, eu sinto, contêm homens que choram no sono e depois dizem Nada. Não é nada. Só sonhos tristes. Ou coisa assim… Basta balançar devagar num barco caça-prantos, com os sensores de lágrimas e as sondas de soluços para os encontrarmos. As mulheres – e podem ser casadas conosco, nossas amantes, musas esquálidas, enfermeiras gordas, obesessões, devoradoras, ex-esposas, nêmesis – despertam, viram-se para esses homens e lhes perguntamm, com a necessidade feminina de saber: “O que foi?” E os homens dizem: “Nada. Não é nada de importante. Só um sonho triste”.

Abertura de A INFORMAÇÃO – Martin Amis.

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London Calling

February 9, 2010 - por Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

“Death or Glory” é uma ode ao gênero maior que “Rock’n’Roll” do Led Zeppelin, “It’s Only Rock’n’Roll” dos Stones e talvez até que “Rock and Roll” do Velvet Underground. Ela varia tempos, abre espaços, cria cenários diferentes à medida que é executada praticamente sem sair do ritmo original, sempre tocado com vigor. Quando Strummer começa a improvisar, balbuciando que “vamos marchar um longo caminho/ vamos viajar por um bom tempo/ vamos viajar pelas montanhas/ vamos viajar sobre os mares”, ele parece um Winston Churchill do punk, só carisma e presença de espírito, clamando as tropas para uma luta que possivelmente não acabe nunca: “Vamos criar problemas, vamos criar o inferno!”, brada entusiasmado, antes da banda voltar ao refrão.

(Trabalho Sujo).

Fez trinta anos.

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Here we go

February 7, 2010 - por Alexandre Rodrigues · 1 Comment

Rodrigues + Medina, perto da uma da manhã, sábado, no intervalo de uma gravação. A música é de 2005. Escrevi pensando que não ia demorar para ter 40, mas ainda sabia o que pensar disso – estava cheio de idéias e objetivos incompletos ou inconclusos. O penteado do Diego é fruto de um banho de mangueira. Fazia muito calor, mas não importava.

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Knut Hamsun usava pince-nez*

January 7, 2010 - por Alexandre Rodrigues · 3 Comments

QUEM LEU Fome, de Knut Hamsun, sabe como é angustiante um personagem cuja única motivação é comer. Henry Miller idolatrava Hamsun, que tem até hoje fama de maldito, o que é esquisito porque o norueguês recebeu um Nobel de literatura. A perspectiva em Fome é ainda mais particular porque o sujeito, mortificado pela fome, delira sobre o artigo fantástico para o jornal da cidade que resolverá seus problemas financeiros e alimentares. Aos poucos, constrói teses e filosofa, sempre na esperança de deixar de ser faminto. Sombrio e patético.

A fome não é contornável. É um achado o personagem não ser um pobre típico. Não há quase nada no livro que possa ser chamada de denúncia social. O narrador mergulha na autopiedade, mas não esconde que tudo aquilo é decorrência de suas próprias atitudes.

Hamsun apoiou os nazistas que ocuparam a Noruega. Depois da guerra, foi multado e internado em um hospital psiquiátrico. Quando teve alta os noruegueses mandavam seus livros de volta pelo correio ou atiravam-nos no jardim da casa onde morava. Apenas no fim da vida foi reabilitado. Suas atitudes políticas não o diminuem como escritor. Fome e Não consegue fugir comprovam.

E Knut Hamsun, como mostra a foto, também usava pince-nez.

(* escrito em 2007, reescrito agora)

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Morte ao vivo

May 19, 2010 - by Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

Eu avistei o general Khattiya enquanto ele cumprimentava apoiadores na quinta-feira dentro do acampamento que os manifestantes construíram no centro de Bangkok.

Ele permaneceu por pelo menos meia hora em um ponto perto de uma barricada improvisada de pneus e estacas de bambu, respondendo a perguntas de um grupo de jornalistas.

Às 6:50, os outros repórteres tinham se afastado, permitindo que eu e minha intérprete fizéssemos perguntas. O que acabou sendo a minha última foi sobre o provável resultado de uma repressão militar. Seria o exército capaz de penetrar as fortificações dos manifestantes?

“O Exército não pode entrar aqui”, respondeu o general Khattiya.

Depois, houve um grande estrondo, e ele caiu de costas no chão. Não houve nenhum grito, nenhum sinal de agonia, apenas seu corpo dobrado em uma placa da calçada com os olhos abertos.

Pelo que pude ver, a bala atingiu o general Khattiya em algum lugar no alto da cabeça, perto da interseção da têmpora e a testa. O general estava diante de mim, assim, meu melhor palpite é que o tiro veio de trás de mim, possivelmente a partir de um atirador em algum lugar na área de negócios através de uma estrada movimentada.

Quando a calma retornar às ruas de Bangkok, os peritos balísticos provavelmente farão uma investigação mais precisa.

Impressionante relato de Thomas Fueller, do New York Times, sobre como foi ver diante de si o assassinato do general Khattiya Sawatdiphol, líder dos protestos na Tailândia.

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Muhammad Ali faz poesia

May 17, 2010 - by Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

Do mesmo jeito como um presidiário que cumpre uma longa sentença passa a viver em desespero a partir do momento em que reconhece que o esforço de manter a sanidade diminuirá sua humanidade, o boxeador também atravessa algo parecido. Tanto o prisioneiro como o boxeador precisam abandonar alguma parte do que têm de melhor (pois o melhor de qualquer ser humano não é mais adequado para a prisão – ou o treinamento – do que um animal é para o jardim zoológico). Mais cedo ou mais tarde o boxeador reconhece que algo em sua psique paga caro demais pelo treino. O enfado não está apenas amortecendo sua personalidade como matando sua alma.

(…)

Finalmente Ali pôs as páginas de lado. Acenou para o auxiliar obediente. O poema ocupava três páginas. “Quanto tempo demorou para escrever?”, perguntaram-lhe. “Cinco horas”, respondeu – Ali era capaz de falar à taxa de trezentas novas palavras por minuto. Devido ao fato de o respeito ser pelo homem, pelo homem integral, incluindo o talento literário (da mesma forma que se estaria pronto a respeitar os guinchos que Balzac pudesse extrair de uma flauta, caso isso fosse revelador de alguma fibra de Balzac – uma certa fibra, de todo modo), surgiu na mente a imagem de Ali, lápis na mão, compondo a partir das profundezas da reverência negra pela rima – aquelas ligações misteriosas no universo do som: jamais uma rima sem um motivo oculto. Será que as rimas de Ali ajudavam a moldar a disposição do futuro ou ele apenas se sentava depois do treino e, devagar, juntava uma linha besta atrás da outra?

Das primeiras páginas de A LUTA – Norman Mailer.

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Filosofia

May 9, 2010 · Leave a Comment

A vida é uma viagem transcorrida quase sempre em um navio de loucos.

Lêdo Ivo, na edição de Moby Dick da coleção Clássicos Francisco Alves.

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Barba Azul

April 2, 2010 - by Alexandre Rodrigues · Leave a Comment

Ainda assim, insisti em que merecia ter a Síndrome do Sobrevivente, como meu pai, e então ela me fez duas perguntas. A primeira foi essa:

- Você acredita, às vezes, que é uma boa pessoa em um mundo onde quase todas as outras boas pessoas estão mortas?

- Não.

- Você acredita que às vezes precisa ser mau, já que todas as boas pessoas estão mortas, e que o único jeito de limpar seu nome é estar morto também?

- Não.

- Você pode merecer a Síndrome do Sobrevivente, mas não a adquiriu – disse ela. – Não quer tentar tuberculose no lugar?

(Publiquei isso ano passado também)

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A entrevista como uma das belas artes

April 2, 2010 - by Alexandre Rodrigues · 1 Comment

Trechos da entrevista de Antonio Abujamra ao jornal O Povo, de Fortaleza.

OP - Você tem medo de alguma coisa?
Abujamra - Blá! Blá! Blá!

OP - O seu personagem provocador não tenta um pouco assustar as pessoas?
Abujamra - Fala mais alto! Eu sou surdo. Além de tudo isso, eu sou surdo.

(….)

OP - Na hora de uma entrevista, você é um ator também?
Abujamra - Vai tomar no teu cu, antes que eu me esqueça. Eu sei lá se eu sou ator ou se eu não sou. (…)

OP - Você não tem mais esperanças?
Abujamra – Nenhuma. Eu quero que a esperança vá tomar no olho do cu dela. Não tem mais nenhuma.

(…)

OP – Quando você percebeu que estava velho?
Abujamra – Eu devia ter uns 15 anos. Eu sou um velho. Eu lia demais. Eu ficava lendo, lendo. Por isso envelheci. Eu sei lá quando eu era velho. Velho é quando começa a baixar o pau. Sei lá, um dia eu sentei nas bolas e percebi que estava velho. (…) Acabou a entrevista?

OP - Ainda não!
Abujamra - (…) Olha para o fotógrafo) O Cartier Bresson, você vai encher muito meu saco ainda? (Pega uma batata-frita e a coloca na altura do pênis e posa para o fotógrafo). Gosto de fazer caretas.

OP - Por que você odeia tanto as coisas?
Abujamra - Quem disse que eu odeio? Não é assim, eu odeio as coisas. Eu sempre fui bem claro. Eu odeio tudo. Não é algumas coisas. Odeio o mar, o ar, vocês. Acho tudo uma bosta nesse país, um lixo. Eu acho odiar uma coisa bem menor do que a vingança. Eu devia me vingar das coisas que acontecem nesse país. Eu só digo que odeio porque as pessoas acreditam que eu odeio.

OP - Quem odeia ama?
Abujamra - Mas é cada pergunta! Vocês tão querendo, né? Vocês vão piorando cada vez mais. Quem odeia ama sim. Ama, trepa, odeia. Ama de novo. Exatamente o que você acha da vida é o que acontece. Gostou? Porra! Tem muita coisa que a gente não sabe responder. Dá para vocês irem embora? A melhor coisa da entrevista até agora foi a batata frita. Geralmente me fazem só três perguntas. Vocês trouxeram um livro. Vão embora!

OP - A gente combinou ser uma hora de entrevista…
Abujamra - Então eu vou dormir aqui. Quando der o tempo, vocês me acordam. Vai seu viadinho, pergunta logo!

(…)

OP – Você se acha superior a outras pessoas?
Abujamra - Acha? Eu não quero achismo.

OP - Desculpa. Você se considera superior a outras pessoas?
Abujamra - Superior? Eu não sou superior a nada. Eu sou um bosta igual a todos. Só que eu vejo as coisas que não me agradam e eu falo. Fui jornalista, fui crítico, fiz tudo na minha vida. Trabalhei em todas as televisões. Fiz 127 peças de teatro. Eu lá vou saber responder essas coisas. Vocês são muito metidos. Aliás, o Ceará é muito metido, sabia? E não tem porra nenhuma. Chega alguém e diz: esse escritor escreveu esse livro recente e é melhor que o Guimarães Rosa. Aqui no Ceará se escreve um poema e acham que mudaram a poesia. Aí eu viajo e comento com alguém. Os caras lá no Ceará escrevem um livro e acham que mudaram a literatura. Alguém responde: “Eles estão certos”. (risos)

(…)

Será que a palavra não é uma coisa muito clara? As pessoas não sabem falar. Elas falam de coisas que não sabem falar e não buscam. Não lêem. Não estudam. Peguem um grande livro, um Joyce, um Kafka, um Proust, um Beckett. Aprendam a ler! Se não dá para não ir ao passado, pega o presente. Existem novos filósofos brasileiros? Não têm! Ou seja, fodam-se. Não me encham o saco. (Pega o gravador e joga longe do local da entrevista. O repórter o recolhe de volta). Levantem-se. Vão embora. Estagiária, vai também. Tchau. Não vou responder mais nenhuma pergunta.

OP – Por que você topou dar essa entrevista, então?
Abujamra - Canalhas! Eu disse “não” 40 vezes. Aí me encheram o saco. “Precisa dar entrevista. É Fortaleza. Blá Blá Blá”. Eu odeio, recusei outra entrevista. Não sei onde apaga essa porra do teu gravador. (Joga de novo o gravador)

OP - Existe alguma…
Abujamra - Vai tomar no cu. Acabou a entrevista. Eu agora só vou responder assim: vão tomar no cu!

OP - Mas tem uma frase…
Abujamra - Vão tomar no cu!

OP - Mas acabou mesmo a entrevista? Queria perguntar mais.
Abujamra - Vai tomar no cu! Nunca falei tanto para jornalista. Lê as outras entrevistas, copia. Tchau! Você é um ridículo fazendo essas perguntas.

(…)

OP – Essa entrevista deu certo ou deu errada?
Abujamra – Você começou a entrevista de novo? Você pode ir embora, eu quero ler os jornais. Tenho 77 anos e não tem entrevista próxima. Eu vou morrer.

OP - Te incomoda a morte?
Abujamra - Eu não agüento vocês. Me incomoda muito. Não, não! Não me incomoda nada. As duas estão certas e aí? Eu não quero responder essas coisas. Tudo o que eu falar, pode escrever o contrário. Não tem importância. Vieram me provocar, então podem ir embora. (A equipe se levanta e segue para fora do hotel. Abujamra grita com os braços erguidos Aleluia! Aleluia! Por favor, terminem a reportagem assim. Aleluia! Aleluia! Aleluia!)

>> Durante a infância, Antonio Abujamra morou em Porto Alegre, onde estudou para se tornar padre ou militar. Possivelmente não foi um bom aluno de matemática.

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Obrigado, O Sul. Copie mais

March 25, 2010 · 5 Comments

Enquanto vinha de táxi para o trabalho hoje descobri que o jornal O Sul gostou de um texto meu. Imagino que gostou bastante. Tanto que decidiu roubá-lo.

Jornais costumam reclamar da deslealdade da internet em se apropriar de seu noticiário. Mas os sites de notícias sérios aprenderam a se comportar com lealdade à fonte, no mínimo dando o crédito pela informação. No jornalismo na internet, não importa tanto quem publicou primeiro. É uma forma de honestidade dizer ao leitor qual foi a fonte da notícia. O que torna ainda mais escandaloso o que fez O Sul.

No domingo, escrevi para o Terra uma matéria sobre um jornalista-robô inventado no Japão. Tema interessante, nada demais. O Terra não foi o primeiro a tratar do assunto. Como credita a matéria, o site de tecnologia Singularity Hub descobriu-o primeiro, servindo de fonte primária. Mas não foi a única. O próprio Laboratório de Sistemas Inteligentes e o Twitter serviram de base para o texto, reunindo mais informações sobre como funcionava o robô.

Até aí ok. A notícia não é de ninguém. Mas o texto sim. Por isso é escandaloso que a mesma matéria publicada no domingo à noite esteja praticamente na íntegra na página 6 do caderno reportagem de O Sul nesta quinta-feira.

No Terra:

“No futuro, pode se tornar comum o público acostumado a assistir entrevistas comandadas não por humanos, mas por robôs?

A possibilidade tornou-se um pouco mais real com uma invenção apresentada no Japão. Cientistas do Laboratório de Sistemas Inteligentes (ISI na sigla e inglês) da Universidade de Tóquio criaram o que poderá ser chamado de “jornalista do futuro”: um robô.

Desde 2002 pesquisadores americanos trabalham na criação de um robô capaz de exercer a função de jornalistas em situações de riscos, o front numa guerra, por exemplo. Estes, no entanto, são apenas robôs controlados à distância e dependem de ordens de humanos sobre o que fazer. A novidade apresentada em Tóquio é totalmente autônoma.

O robô-jornalista, afirmam os cientistas, é capaz de explorar o ambiente e relatar o que observou. Ao detectar mudanças à sua volta, decide se são relevantes, e então pode fotografá-las com sua câmera integrada.

Montado sobre a estrutura de um segway – meio de transporte de duas rodas criado na década passada -, o robô também é capaz de fazer entrevistas com pessoas e buscar na internet informações que o ajudem a entender o que se passa. Se algo parecer digno de virar notícia, irá escrever um texto e publicá-lo na web.

Em seu perfil no Twitter, Charlie Catlett, pesquisador dos laboratórios Argonne National, nos Estados Unidos, mostrou-se impressionado com o robô, apresentado no encontro mais recente da Sociedade de Processamento de Informação do Japão. “Por combinar o mundo real e pesquisa na internet, o jornalista robô é um passo adiante com relação a outros sistemas automáticos. Espere algum tempo e robôs como esse poderiam se tornar valiosos para a produção de notícias em toda parte”, escreveu a respeito o site de tecnologia Singularity Hub.

Em novembro passado, um programa criado pelo Intelligent Informations Lab, da Universidade Northwestern, mostrou-se capaz – alimentado com as informações – de escrever um texto sobre beisebol sem interferência humana. O jornalista robô japonês leva as invenções a outro nível. É capaz de coletar sozinho as informações. Por um bom tempo jornalistas humanos certamente terão a preferência do público. Mas não dá para negar: ganharam um concorrente”.

Em O Sul de hoje:

Já pensou em assistir a uma entrevista feita por uma máquina? A possibilidade tornou-se mais real com uma invenção apresentada no Japão. Cientistas do Laboratório de Sistemas Inteligentes (ISI na sigla e inglês) da Universidade de Tóquio criaram o que poderá ser chamado de “jornalista do futuro”: um robô.

Desde 2002 pesquisadores americanos trabalham na criação de um humanoide capaz de exercer a função de jornalistas em situações de riscos, o front numa guerra, por exemplo. Esses, no entanto, são apenas robôs controlados à distância e dependem de ordens de humanos sobre o que fazer. A novidade, porém, é totalmente autônoma.

O robô-jornalista é capaz de explorar o ambiente e relatar o que observou. Ao detectar mudanças, decide se são relevantes, e então pode fotografá-las com sua câmera integrada.

Montado sobre a estrutura de um segway – meio de transporte de duas rodas criado na década passada -, o robô também é capaz de fazer entrevistas com pessoas e buscar na internet informações que o ajudem a entender o que se passa. Se algo parecer digno de virar notícia, escreve o texto e publica na web.

Em seu perfil no Twitter, Charlie Catlett, pesquisador dos laboratórios Argonne National, nos Estados Unidos, mostrou-se impressionado com a criação. “Por combinar o mundo real e pesquisa na internet, o jornalista robô é um passo adiante com relação a outros sistemas automáticos. Espere algum tempo e robôs como esse poderiam se tornar valiosos para a produção de notícias em toda parte”, escreveu.

Em novembro passado, uma máquina do Intelligent Informations Lab, da Universidade Northwestern, mostrou-se capaz – alimentado com as informações – de escrever um texto sobre beisebol sem interferência humana. Mas o jornalista robô japonês leva as invenções a outro nível – à coleta de informações.

As diferenças entre um texto e outro são ridículas. Se trata de uma cópia. Plágio vergonhoso. E pior: uma cópia mal feita. Na real, o assunto não é tão importante que mereça algo além de um registro. Mas não custa dizer o tipo de jornalismo que, ao que parece, é feito por O Sul. É defasado (publicou uma matéria quatro dias depois), incorreto (credita ao pesquisador a declaração de um site) e, fundamentalmente, preguiçoso. No mínimo.

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Mais uma dos Massa

March 11, 2010 · Leave a Comment

Só mulher pelada – Redenção, 4 de agosto de 2009.

→ Leave a CommentCategories: Música

Homens que choram

February 27, 2010 · 2 Comments

” As cidades à noite, eu sinto, contêm homens que choram no sono e depois dizem Nada. Não é nada. Só sonhos tristes. Ou coisa assim… Basta balançar devagar num barco caça-prantos, com os sensores de lágrimas e as sondas de soluços para os encontrarmos. As mulheres – e podem ser casadas conosco, nossas amantes, musas esquálidas, enfermeiras gordas, obesessões, devoradoras, ex-esposas, nêmesis – despertam, viram-se para esses homens e lhes perguntamm, com a necessidade feminina de saber: “O que foi?” E os homens dizem: “Nada. Não é nada de importante. Só um sonho triste”.

Abertura de A INFORMAÇÃO – Martin Amis.

→ 2 CommentsCategories: literatura

London Calling

February 9, 2010 · Leave a Comment

“Death or Glory” é uma ode ao gênero maior que “Rock’n’Roll” do Led Zeppelin, “It’s Only Rock’n’Roll” dos Stones e talvez até que “Rock and Roll” do Velvet Underground. Ela varia tempos, abre espaços, cria cenários diferentes à medida que é executada praticamente sem sair do ritmo original, sempre tocado com vigor. Quando Strummer começa a improvisar, balbuciando que “vamos marchar um longo caminho/ vamos viajar por um bom tempo/ vamos viajar pelas montanhas/ vamos viajar sobre os mares”, ele parece um Winston Churchill do punk, só carisma e presença de espírito, clamando as tropas para uma luta que possivelmente não acabe nunca: “Vamos criar problemas, vamos criar o inferno!”, brada entusiasmado, antes da banda voltar ao refrão.

(Trabalho Sujo).

Fez trinta anos.

→ Leave a CommentCategories: Música

Here we go

February 7, 2010 · 1 Comment

Rodrigues + Medina, perto da uma da manhã, sábado, no intervalo de uma gravação. A música é de 2005. Escrevi pensando que não ia demorar para ter 40, mas ainda sabia o que pensar disso – estava cheio de idéias e objetivos incompletos ou inconclusos. O penteado do Diego é fruto de um banho de mangueira. Fazia muito calor, mas não importava.

→ 1 CommentCategories: Insanidade

Knut Hamsun usava pince-nez*

January 7, 2010 · 3 Comments

QUEM LEU Fome, de Knut Hamsun, sabe como é angustiante um personagem cuja única motivação é comer. Henry Miller idolatrava Hamsun, que tem até hoje fama de maldito, o que é esquisito porque o norueguês recebeu um Nobel de literatura. A perspectiva em Fome é ainda mais particular porque o sujeito, mortificado pela fome, delira sobre o artigo fantástico para o jornal da cidade que resolverá seus problemas financeiros e alimentares. Aos poucos, constrói teses e filosofa, sempre na esperança de deixar de ser faminto. Sombrio e patético.

A fome não é contornável. É um achado o personagem não ser um pobre típico. Não há quase nada no livro que possa ser chamada de denúncia social. O narrador mergulha na autopiedade, mas não esconde que tudo aquilo é decorrência de suas próprias atitudes.

Hamsun apoiou os nazistas que ocuparam a Noruega. Depois da guerra, foi multado e internado em um hospital psiquiátrico. Quando teve alta os noruegueses mandavam seus livros de volta pelo correio ou atiravam-nos no jardim da casa onde morava. Apenas no fim da vida foi reabilitado. Suas atitudes políticas não o diminuem como escritor. Fome e Não consegue fugir comprovam.

E Knut Hamsun, como mostra a foto, também usava pince-nez.

(* escrito em 2007, reescrito agora)

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Sobre os elefantes

January 6, 2010 · Leave a Comment

Aqui.

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Hombridade

January 5, 2010 · 1 Comment

Desenho feito pela Stephanie, amiga de São Paulo que visitou Porto Alegre esta semana, inspirado na foto da contracapa do livro.

→ 1 CommentCategories: Insanidade

Cormac McCarthy

January 2, 2010 · Leave a Comment

Só agora a criança se despe enfim de tudo que foi. Suas origens tornam-se remotas como seu destino e nunca mais outra vez por mais voltas que o mundo dê haverá plagas tão selvagens e bárbaras a ponto de pôr à prova se a matéria da criação pode ser moldada à vontade do homem ou se o seu próprio coração não é uma argila de outro tipo.

(Meridiano de sangue, logo na segunda página)

→ Leave a CommentCategories: literatura

Os zumbis – Donald Barthelme

December 29, 2009 · Leave a Comment

(Decidi não deixar a década terminar sem traduzir meu conto favorito dele).

Em uma ventania, as folhas caem das árvores. Os zumbis vagam à toa, dizendo: “Lindo dia!” “Certamente é!” Os zumbis vêm comprar esposas dos habitantes desta aldeia, a única aldeia das redondezas que venderá mulheres aos zumbis. “Lindo dia!” “Certamente é!” Os zumbis trouxeram muito gado. O preço de uma noiva para um zumbi é exatamente o dobro do preço para um homem comum. O gado também é zumbi e os zumbis vivem aterrorizados por evitar que o povo da aldeia descubra.

Estes são zumbis bons. Gris Grue disse. Eles estão pintados quase inteiros de branco. Zumbis maus andam sem pintura e choram com seus narizes, as narinas expelindo lágrimas. O chefe da aldeia chama a atenção dos zumbis para os finos edifícios de tijolos da aldeia, alguns com a altura de mil tijolos – filhas espreitando nas janelas, plantas verdes em outras janelas, e em outras, filhas. “Você tem que prometer não contar ao bispo”, dizem os zumbis, “prometa não dizer ao bispo, dia bonito, é, certamente”.

Os zumbis pintados de branco conversam loucamente, na praça da aldeia, em uma imitação de júbilo. “Comprei um casaco novo!” “Você comprou!” “Sim, comprei um casaco novo, este casaco que estou usando, eu acho que é muito bom!” “Ah é, é, sim, eu acho”. O gado escoiceia a cerca de arame do curral. O beijo de um animal agonizante, um cavalo ou um cão morrendo, transforma um homem comum em um zumbi. O dono da sorveteria tem duas filhas. O fazendeiro casca-grossa tem cinco filhas, e o capitão do time de futebol, cujos pais estão mortos, tem uma irmã. Gris Grue não está. Está longe, em outro lugar, procurando um remédio para envenenamento por beladona. Um zumbi com um termômetro retal rasteja pelo curral, sob as barrigas de animais grandes e marrom-azulados. Alguém diz que o bispo foi visto em seu carro a toda velocidade em direção à vila.

Se um zumbi mau pegar você, ele vai chorar em cima de você ou tirar o seu uísque ou ferir os ossos de sua filha. Há filhas demais na praça, nas janelas dos prédios, mas não maridos o suficiente. Se um zumbi mau pegar você, vai arranhar sua pintura branca com furadores e arados. Os bons zumbis gingam e dançam. “Você viu aquela mulher? Será que ela quer se casar comigo? Eu não sei! Oh, que dama bonita! Será que ela quer se casar comigo? Eu não sei!” O distribuidor de cerveja levou um barril de cerveja para a praça. O professor local de canto está cantando. Os zumbis dizem: “Época maravilhosa! Lindo dia! Cantar Maravilhoso! Excelente cerveja! Será que a mulher quer se casar comigo? Eu não sei!”. Com um vento forte, as folhas caem das árvores, das árvores.

O herói dos zumbis Gris Grue disse: “Há bons e maus zumbis, assim como há bons e maus homens”. Gris Grue disse que muitos dos zumbis que ele conheceu eram claramente zumbis do tipo antigo e, portanto, eminentemente adequados, na sua opinião, para exercer o comércio, comandar empresas, ter importantes cargos no governo e participar dos mistérios do Batismo, Confirmação, Ordenação, Matrimônio, Penitência, Eucaristia e Extrema Unção. O bispo disse não. Os zumbis enviaram muitas cabeças de gado para o bispo. O bispo disse: tudo menos Ordenação.

Se um zumbi mau pegar você, ele irá criar tumulto em sua bexiga. Os zumbis maus destruíram o carro do bispo com uma vaca morta à noite. De manhã, o bispo teve que empurrar a vaca morta de volta pelo pára-brisa e cortou a mão. Gris Grue decide quem é um zumbi bom e quem é um zumbi mau, quando ele está ausente, sua sogra decide. Um zumbi avança para um grupo de finas filhas que estão florescendo e descreve, com muitos movimentos das mãos e dos braços, os cafés da manhã que podem esperar na casa de um zumbi.

“Segunda-feira!”, diz ele. “Laranjas fatiadas bolinhos de aveia cozidos rãs fritas rabanetes batata agrião salpicão de frango grelhado primavera bolos manteiga xarope (vou usar xarope, mas é syrup) e café com leite! Terça-feira! Passas com filé grelhado batatas fritas aipo rolinhos frescos manteiga e café com leite! Quarta-feira! Figos gelados Pargo à milanesa com molho tártaro batatas chips presunto cozido ovos mexidos torrada francesa e café com leite! quinta-feira! Bananas com creme de aveia patassas (peixe minúsculo da América do Norte. O nome é de origem indiana) fígado frito com bacon ovos cozidos com torradas waffles com xarope e café com leite! sexta-feira! Morangos com creme de ostras na torrada aipo frito perca à lyonnaise pão de batatas com calda e café com leite! sábado Melão gelado com grãos de aveia cozidos omelete com ervas e tripas azeitonas picadas bolos com calda e café com leite! ” O zumbi dá um longo suspiro. “Domingo!”, diz ele. “Pêssegos e creme de aveia amassada com leite espanhol fervido cavala grelhada com molho de maitre d’hotel cremoso biscoitos batidos de frango grelhado galinhola bolos ingleses de arroz batatas à La duchese ovos Benedict ostras em meia concha assadas costeletas de carneiro com bolo calda e café com leite! E champagne importado!” Os zumbis olham ansiosamente para as mulheres, para ver se a proposta agrada.

Uma sacerdotisa vodu (criadora de zumbis) agarra um homem pelos cabelos e força seus lábios até próximo da boca de um gato agonizante. Se você fizer o trabalho pesado para uma delas por dez anos, então está livre, mas continua um zumbi. O carro do Bispo voltou a funcionar bem. Nenhuma filha desta aldeia jamais tem na memória um verdadeiro marido ou algo parecido. As filhas estão cansadas de beijar umas às outras, embora algumas não. Os pais da aldeia estão cansados de pagar pelas máquinas de costura, cômodas e toalhas das filhas. Um zumbi careca diz: “Oh, que moça bonita! Eu seria bom para ela! Sim, eu seria! Eu acho!” Zumbis maus estão encostados às paredes dos edifícios, observando. Zumbis maus podem, por lei, apenas acasalar com carrapatos de ovelhas. As mulheres não querem os zumbis, mas zumbis são o que lhes cabe. Uma mulher diz a outra mulher: “Esses caras são zumbis!” “Sim”, diz a segunda mulher: “Eu vi um homem bonito, sua foto saiu no jornal, mas ele não está aqui”. O zumbi no curral encontra-se a uma temperatura de cento e dez graus.

Os aldeões batem em tambores enormes com esfregões. O bispo chega em seu grande carro com bandeiras brancas episcopais tremulando nos pára-lamas direito e esquerdo. “Proibido, proibido, proibido!”, ele grita. Gris Grue aparece em um trenó prateado e cobre os olhos do bispo com as mãos. No momento do pôr do sol, casais, dois a dois, são casados. O curral estremece enquanto o gado desfalece. As novas esposas se viram para seus maridos e dizem: “Não importa. Isto é o que nós devemos fazer. Nós vamos colar fotografias do homem bonito em seus rostos quando for a hora de ir para a cama. Agora vamos cortar o bolo”. Os bons zumbis dizem, “Vocês são bem-vindas! Vocês são muito bem-vindas! Eu acho que sim! Sem dúvida!” Os zumbis maus escondem carrapatos de ovelhas nas ouvidos do Bispo. Se um zumbi mau pegar você, ele vai machucar sua pele com cinzéis e ancinhos. Se um zumbi mau pegar você, ele vai fazer você passar ao lado de um belo par de seios sem nem perceber.

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gabinetedentario.org

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Homens que choram

February 27, 2010 · 1 Comment

” As cidades à noite, eu sinto, contêm homens que choram no sono e depois dizem Nada. Não é nada. Só sonhos tristes. Ou coisa assim… Basta balançar devagar num barco caça-prantos, com os sensores de lágrimas e as sondas de soluços para os encontrarmos. As mulheres – e podem ser casadas conosco, nossas amantes, musas esquálidas, enfermeiras gordas, obesessões, devoradoras, ex-esposas, nêmesis – despertam, viram-se para esses homens e lhes perguntamm, com a necessidade feminina de saber: “O que foi?” E os homens dizem: “Nada. Não é nada de importante. Só um sonho triste”.

Abertura de A INFORMAÇÃO – Martin Amis.

→ 1 CommentCategories: literatura

London Calling

February 9, 2010 · Leave a Comment

“Death or Glory” é uma ode ao gênero maior que “Rock’n’Roll” do Led Zeppelin, “It’s Only Rock’n’Roll” dos Stones e talvez até que “Rock and Roll” do Velvet Underground. Ela varia tempos, abre espaços, cria cenários diferentes à medida que é executada praticamente sem sair do ritmo original, sempre tocado com vigor. Quando Strummer começa a improvisar, balbuciando que “vamos marchar um longo caminho/ vamos viajar por um bom tempo/ vamos viajar pelas montanhas/ vamos viajar sobre os mares”, ele parece um Winston Churchill do punk, só carisma e presença de espírito, clamando as tropas para uma luta que possivelmente não acabe nunca: “Vamos criar problemas, vamos criar o inferno!”, brada entusiasmado, antes da banda voltar ao refrão.

(Trabalho Sujo).

Fez trinta anos.

→ Leave a CommentCategories: Música

Here we go

February 7, 2010 · 1 Comment

Rodrigues + Medina, perto da uma da manhã, sábado, no intervalo de uma gravação. A música é de 2005. Escrevi pensando que não ia demorar para ter 40, mas ainda sabia o que pensar disso – estava cheio de idéias e objetivos incompletos ou inconclusos. O penteado do Diego é fruto de um banho de mangueira. Fazia muito calor, mas não importava.

→ 1 CommentCategories: Insanidade

Knut Hamsun usava pince-nez*

January 7, 2010 · 3 Comments

QUEM LEU Fome, de Knut Hamsun, sabe como é angustiante um personagem cuja única motivação é comer. Henry Miller idolatrava Hamsun, que tem até hoje fama de maldito, o que é esquisito porque o norueguês recebeu um Nobel de literatura. A perspectiva em Fome é ainda mais particular porque o sujeito, mortificado pela fome, delira sobre o artigo fantástico para o jornal da cidade que resolverá seus problemas financeiros e alimentares. Aos poucos, constrói teses e filosofa, sempre na esperança de deixar de ser faminto. Sombrio e patético.

A fome não é contornável. É um achado o personagem não ser um pobre típico. Não há quase nada no livro que possa ser chamada de denúncia social. O narrador mergulha na autopiedade, mas não esconde que tudo aquilo é decorrência de suas próprias atitudes.

Hamsun apoiou os nazistas que ocuparam a Noruega. Depois da guerra, foi multado e internado em um hospital psiquiátrico. Quando teve alta os noruegueses mandavam seus livros de volta pelo correio ou atiravam-nos no jardim da casa onde morava. Apenas no fim da vida foi reabilitado. Suas atitudes políticas não o diminuem como escritor. Fome e Não consegue fugir comprovam.

E Knut Hamsun, como mostra a foto, também usava pince-nez.

(* escrito em 2007, reescrito agora)

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Sobre os elefantes

January 6, 2010 · Leave a Comment

Aqui.

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Hombridade

January 5, 2010 · 1 Comment

Desenho feito pela Stephanie, amiga de São Paulo que visitou Porto Alegre esta semana, inspirado na foto da contracapa do livro.

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Cormac McCarthy

January 2, 2010 · Leave a Comment

Só agora a criança se despe enfim de tudo que foi. Suas origens tornam-se remotas como seu destino e nunca mais outra vez por mais voltas que o mundo dê haverá plagas tão selvagens e bárbaras a ponto de pôr à prova se a matéria da criação pode ser moldada à vontade do homem ou se o seu próprio coração não é uma argila de outro tipo.

(Meridiano de sangue, logo na segunda página)

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Os zumbis – Donald Barthelme

December 29, 2009 · Leave a Comment

(Decidi não deixar a década terminar sem traduzir meu conto favorito dele).

Em uma ventania, as folhas caem das árvores. Os zumbis vagam à toa, dizendo: “Lindo dia!” “Certamente é!” Os zumbis vêm comprar esposas dos habitantes desta aldeia, a única aldeia das redondezas que venderá mulheres aos zumbis. “Lindo dia!” “Certamente é!” Os zumbis trouxeram muito gado. O preço de uma noiva para um zumbi é exatamente o dobro do preço para um homem comum. O gado também é zumbi e os zumbis vivem aterrorizados por evitar que o povo da aldeia descubra.

Estes são zumbis bons. Gris Grue disse. Eles estão pintados quase inteiros de branco. Zumbis maus andam sem pintura e choram com seus narizes, as narinas expelindo lágrimas. O chefe da aldeia chama a atenção dos zumbis para os finos edifícios de tijolos da aldeia, alguns com a altura de mil tijolos – filhas espreitando nas janelas, plantas verdes em outras janelas, e em outras, filhas. “Você tem que prometer não contar ao bispo”, dizem os zumbis, “prometa não dizer ao bispo, dia bonito, é, certamente”.

Os zumbis pintados de branco conversam loucamente, na praça da aldeia, em uma imitação de júbilo. “Comprei um casaco novo!” “Você comprou!” “Sim, comprei um casaco novo, este casaco que estou usando, eu acho que é muito bom!” “Ah é, é, sim, eu acho”. O gado escoiceia a cerca de arame do curral. O beijo de um animal agonizante, um cavalo ou um cão morrendo, transforma um homem comum em um zumbi. O dono da sorveteria tem duas filhas. O fazendeiro casca-grossa tem cinco filhas, e o capitão do time de futebol, cujos pais estão mortos, tem uma irmã. Gris Grue não está. Está longe, em outro lugar, procurando um remédio para envenenamento por beladona. Um zumbi com um termômetro retal rasteja pelo curral, sob as barrigas de animais grandes e marrom-azulados. Alguém diz que o bispo foi visto em seu carro a toda velocidade em direção à vila.

Se um zumbi mau pegar você, ele vai chorar em cima de você ou tirar o seu uísque ou ferir os ossos de sua filha. Há filhas demais na praça, nas janelas dos prédios, mas não maridos o suficiente. Se um zumbi mau pegar você, vai arranhar sua pintura branca com furadores e arados. Os bons zumbis gingam e dançam. “Você viu aquela mulher? Será que ela quer se casar comigo? Eu não sei! Oh, que dama bonita! Será que ela quer se casar comigo? Eu não sei!” O distribuidor de cerveja levou um barril de cerveja para a praça. O professor local de canto está cantando. Os zumbis dizem: “Época maravilhosa! Lindo dia! Cantar Maravilhoso! Excelente cerveja! Será que a mulher quer se casar comigo? Eu não sei!”. Com um vento forte, as folhas caem das árvores, das árvores.

O herói dos zumbis Gris Grue disse: “Há bons e maus zumbis, assim como há bons e maus homens”. Gris Grue disse que muitos dos zumbis que ele conheceu eram claramente zumbis do tipo antigo e, portanto, eminentemente adequados, na sua opinião, para exercer o comércio, comandar empresas, ter importantes cargos no governo e participar dos mistérios do Batismo, Confirmação, Ordenação, Matrimônio, Penitência, Eucaristia e Extrema Unção. O bispo disse não. Os zumbis enviaram muitas cabeças de gado para o bispo. O bispo disse: tudo menos Ordenação.

Se um zumbi mau pegar você, ele irá criar tumulto em sua bexiga. Os zumbis maus destruíram o carro do bispo com uma vaca morta à noite. De manhã, o bispo teve que empurrar a vaca morta de volta pelo pára-brisa e cortou a mão. Gris Grue decide quem é um zumbi bom e quem é um zumbi mau, quando ele está ausente, sua sogra decide. Um zumbi avança para um grupo de finas filhas que estão florescendo e descreve, com muitos movimentos das mãos e dos braços, os cafés da manhã que podem esperar na casa de um zumbi.

“Segunda-feira!”, diz ele. “Laranjas fatiadas bolinhos de aveia cozidos rãs fritas rabanetes batata agrião salpicão de frango grelhado primavera bolos manteiga xarope (vou usar xarope, mas é syrup) e café com leite! Terça-feira! Passas com filé grelhado batatas fritas aipo rolinhos frescos manteiga e café com leite! Quarta-feira! Figos gelados Pargo à milanesa com molho tártaro batatas chips presunto cozido ovos mexidos torrada francesa e café com leite! quinta-feira! Bananas com creme de aveia patassas (peixe minúsculo da América do Norte. O nome é de origem indiana) fígado frito com bacon ovos cozidos com torradas waffles com xarope e café com leite! sexta-feira! Morangos com creme de ostras na torrada aipo frito perca à lyonnaise pão de batatas com calda e café com leite! sábado Melão gelado com grãos de aveia cozidos omelete com ervas e tripas azeitonas picadas bolos com calda e café com leite! ” O zumbi dá um longo suspiro. “Domingo!”, diz ele. “Pêssegos e creme de aveia amassada com leite espanhol fervido cavala grelhada com molho de maitre d’hotel cremoso biscoitos batidos de frango grelhado galinhola bolos ingleses de arroz batatas à La duchese ovos Benedict ostras em meia concha assadas costeletas de carneiro com bolo calda e café com leite! E champagne importado!” Os zumbis olham ansiosamente para as mulheres, para ver se a proposta agrada.

Uma sacerdotisa vodu (criadora de zumbis) agarra um homem pelos cabelos e força seus lábios até próximo da boca de um gato agonizante. Se você fizer o trabalho pesado para uma delas por dez anos, então está livre, mas continua um zumbi. O carro do Bispo voltou a funcionar bem. Nenhuma filha desta aldeia jamais tem na memória um verdadeiro marido ou algo parecido. As filhas estão cansadas de beijar umas às outras, embora algumas não. Os pais da aldeia estão cansados de pagar pelas máquinas de costura, cômodas e toalhas das filhas. Um zumbi careca diz: “Oh, que moça bonita! Eu seria bom para ela! Sim, eu seria! Eu acho!” Zumbis maus estão encostados às paredes dos edifícios, observando. Zumbis maus podem, por lei, apenas acasalar com carrapatos de ovelhas. As mulheres não querem os zumbis, mas zumbis são o que lhes cabe. Uma mulher diz a outra mulher: “Esses caras são zumbis!” “Sim”, diz a segunda mulher: “Eu vi um homem bonito, sua foto saiu no jornal, mas ele não está aqui”. O zumbi no curral encontra-se a uma temperatura de cento e dez graus.

Os aldeões batem em tambores enormes com esfregões. O bispo chega em seu grande carro com bandeiras brancas episcopais tremulando nos pára-lamas direito e esquerdo. “Proibido, proibido, proibido!”, ele grita. Gris Grue aparece em um trenó prateado e cobre os olhos do bispo com as mãos. No momento do pôr do sol, casais, dois a dois, são casados. O curral estremece enquanto o gado desfalece. As novas esposas se viram para seus maridos e dizem: “Não importa. Isto é o que nós devemos fazer. Nós vamos colar fotografias do homem bonito em seus rostos quando for a hora de ir para a cama. Agora vamos cortar o bolo”. Os bons zumbis dizem, “Vocês são bem-vindas! Vocês são muito bem-vindas! Eu acho que sim! Sem dúvida!” Os zumbis maus escondem carrapatos de ovelhas nas ouvidos do Bispo. Se um zumbi mau pegar você, ele vai machucar sua pele com cinzéis e ancinhos. Se um zumbi mau pegar você, ele vai fazer você passar ao lado de um belo par de seios sem nem perceber.

→ Leave a CommentCategories: Conto

I just dropped in…

December 18, 2009 · Leave a Comment

→ Leave a CommentCategories: Música

Kurt Vonnegut está escrevendo

December 10, 2009 · Leave a Comment

Ele reescrevia e reescrevia e reescrevia, resmungando sem parar o que quer que tivesse acabado de escrever, inclinando a cabeça para a frente e para trás, gesticulando, mudando o tom e o ritmo das palavras. Então fazia uma pausa, pensava bem e arrancava da máquina a folha em que mal escrevera algo, amassava, jogava fora e começava de novo. Parecia estranho um adulto passar o tempo daquele jeito, mas eu era só uma criança.

(…)

Quando escrevia, Kurt estava dando inícioa uma missão. Ele sabia, porque havia acontecido antes, que se conseguisse se manter em atividade poderia esbarrar em algo interessante, que então moldaria e imprimiria sua marca. Por mais vezes em que isso tenha acontecido não tinha muito autoconfiança. Preocupava-se que cada boa idéia pudesse ser a última e que qualquer sucesso aparente fosse fogo de palha.

Preocupava-se em ter pernas finas e não ser um bom jogador de tênis.

Tinha dificuldade em se permitir ser feliz, mas mal disfarçava a alegria que sentia por escrever bem.

Os períodos mais infelizes de sua vida eram aqueles meses e às vezes um ano inteiro em que não conseguia escrever, em que estava “bloqueado”. Tentava de tudo para se desbloquear, mas ficava muito inquieto e desconfiado quando o assunto era a psiquiatria. Uma vez deixou escapar, eu tinha vinte e poucos anos, que tinha medo de que a terapia pudesse deixá-lo normal e equilibrado e que isso terminaria com sua vida de escritor. Tentei convencê-lo de que os psiquiatras estavam longe de serem tão bons assim.

(…)

Em meados de 1950 foi contratado pela Sports Illustrated por um breve período. Compareceu ao trabalho e recebeu a solicitação de escrever um pequeno texto sobre um cavalo de corrida que havia saltado sobre a cerca e tentado fugir. Kurt Vonnegut ficou encarando o papel em branco a manhã inteira e então datilografou “O cavalo saltou sobre a porra da cerca” e saiu, novamente autônomo.

(…)

Ele era como um extrovertido que queria ser um introvertido, um cara muito sociável que queria ser um solitário, um sujeito de sorte que preferia ter sido um azarado. Um otimista posando de pessimista na esperança de que as pessoas prestassem atenção.

(…)

Ler e escrever são em si atos subervisos. O que subvertem é a noção de que as coisas precisam ser como são, de que estamos sozinhos, de que ninguém jamais se sentiu como nos sentimos. O mundo se torna um pouco diferente simplesmente porque elas (as pessoas) leram um bendito livro.

MARK VONNEGUT, filho dele, em Armagedom em retrospecto.

→ Leave a CommentCategories: literatura

Filho do mar

December 8, 2009 · Leave a Comment

Uma coisa que não me avisaram um ano atrás foi que embarcar em um grande navio tem uma consequência: filas. Para chegar ao Norwegian Sun, foram quatro de centenas de pessoas – despacho das malas, primeiro check-in, segundo check-in e passagem pela Alfândega. No total, três horas e pouco em galpões desconfortáveis e calorentos, onde perdi os óculos escuros ao deixá-los em cima de um balcão enquanto preenchia um formulário. Como consequência, ao procurá-los na recepção do navio, me deparei com uma gaveta cheia de óculos perdidos. Os meus não estavam lá.

Há uma excitação geral, apesar do cansaço e da perplexidade dos estrangeiros, americanos e europeus, principalmente, com o desconforto. O porto de Buenos Aires é arcaico.

Chega-se ao navio de ônibus. Pela primeira vez, ao descer, dei de cara com aquela monstruosidade em toda a sua feiúra externa.

Todos os passageiros recebem na cabine um formulário em que podem elogiar ou reclamar de um funcionário ou camareiro. Um dos meus prediletos era Devon, sempre com um casaco vermelho com galões – em geral, os funcionários do restaurante usam camisas floridas -, porque era velho. Quase todo mundo na tripulação era jovem. Devon tinha 55 anos pelo menos. Os cabelos e o bigode grisalhos.

Devon, jamaicano, me serviu waffles por doze dias, desde que o descobri no bar dos fundos no café da manhã. No último dia, pedi seu nome completo para elogiá-lo no tal formulário. Tinha ouvido que eles são contratados por períodos de apenas oito meses. Ficam depois mais quatro desempregados e então precisam de um bom desempenho para serem contratados de novo. Elogios contam a favor. É alta a rotatividade no ramo.

Devon me deu um pequeno pedaço de papel amarelo, timbrado do navio. Escreveu seu nome e ao lado, “filho do mar”.

O relato da viagem aqui.

→ Leave a CommentCategories: Metafísica

Segunda

December 4, 2009 · Leave a Comment

Estarei na platéia.

→ Leave a CommentCategories: Insanidade

Munch se inspira

November 29, 2009 · Leave a Comment

→ Leave a CommentCategories: Gênios

Jodorovsky para principiantes

November 27, 2009 · Leave a Comment

Nasci na Bolívia, de pais russos, vivi no Chile, trabalhei em Paris, fui parceiro de Marcel Marceau, fundei o movimento ‘Pânico’ com Fernando Arrabal, dirigi 100 peças no México, fiz o roteiro de uma tira de quadrinhos, dirigi El Topo e agora vivo nos Estados Unidos – não sendo bem aceito em nenhum lugar porque na Bolívia eu era um russo; no Chile, um judeu; em Paris, um chileno; no México, um francês e agora, nos Estados Unidos, eu sou um mexicano“.

(autobiografia)

→ Leave a CommentCategories: Metafísica

Louis Theroux vai ao café

November 26, 2009 · Leave a Comment

Acabo de ir pegar um café. O Louis Theroux tava atrás de mim na fila, comprando chá pra alguma mulher que veio visitar ele pra alguma coisa (ela tava sentada em uma mesa, e ele ficava perguntando pra ela “how’s your hotel?”)

Ele não para de falar. E ele fala de um jeito meio autista, com perguntas hiper-educadas e curtas. Disse que hoje tava se sentindo “a little bit under the weather” (“meio mal”) e meio “radioactive” (não faço ideia do que seja isso).

Ele anota recados nas mãos. Tava escrito na esquerda: “David DVD” Mas acho que ele já cumpriu a tarefa, porque tava riscado.

Depois no café, eu tentei ouvir um pouco o papo deles, já que eu tava na mesa do lado, mas era muito chato (ele repetia toda a hora “the industry! the industry!”, seja lá o que era isso).

(e-mail recebido hoje de amigo que trabalha na BBC, em Londres)

→ Leave a CommentCategories: Insanidade

gabinetedentario.org

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Os zumbis – Donald Barthelme

December 29, 2009 · Leave a Comment

(Decidi não deixar a década terminar sem traduzir meu conto favorito dele).

Em uma ventania, as folhas caem das árvores. Os zumbis vagam à toa, dizendo: “Lindo dia!” “Certamente é!” Os zumbis vêm comprar esposas dos habitantes desta aldeia, a única aldeia das redondezas que venderá mulheres aos zumbis. “Lindo dia!” “Certamente é!” Os zumbis trouxeram muito gado. O preço de uma noiva para um zumbi é exatamente o dobro do preço para um homem comum. O gado também é zumbi e os zumbis vivem aterrorizados por evitar que o povo da aldeia descubra.

Estes são zumbis bons. Gris Grue disse. Eles estão pintados quase inteiros de branco. Zumbis maus andam sem pintura e choram com seus narizes, as narinas expelindo lágrimas. O chefe da aldeia chama a atenção dos zumbis para os finos edifícios de tijolos da aldeia, alguns com a altura de mil tijolos – filhas espreitando nas janelas, plantas verdes em outras janelas, e em outras, filhas. “Você tem que prometer não contar ao bispo”, dizem os zumbis, “prometa não dizer ao bispo, dia bonito, é, certamente”.

Os zumbis pintados de branco conversam loucamente, na praça da aldeia, em uma imitação de júbilo. “Comprei um casaco novo!” “Você comprou!” “Sim, comprei um casaco novo, este casaco que estou usando, eu acho que é muito bom!” “Ah é, é, sim, eu acho”. O gado escoiceia a cerca de arame do curral. O beijo de um animal agonizante, um cavalo ou um cão morrendo, transforma um homem comum em um zumbi. O dono da sorveteria tem duas filhas. O fazendeiro casca-grossa tem cinco filhas, e o capitão do time de futebol, cujos pais estão mortos, tem uma irmã. Gris Grue não está. Está longe, em outro lugar, procurando um remédio para envenenamento por beladona. Um zumbi com um termômetro retal rasteja pelo curral, sob as barrigas de animais grandes e marrom-azulados. Alguém diz que o bispo foi visto em seu carro a toda velocidade em direção à vila.

Se um zumbi mau pegar você, ele vai chorar em cima de você ou tirar o seu uísque ou ferir os ossos de sua filha. Há filhas demais na praça, nas janelas dos prédios, mas não maridos o suficiente. Se um zumbi mau pegar você, vai arranhar sua pintura branca com furadores e arados. Os bons zumbis gingam e dançam. “Você viu aquela mulher? Será que ela quer se casar comigo? Eu não sei! Oh, que dama bonita! Será que ela quer se casar comigo? Eu não sei!” O distribuidor de cerveja levou um barril de cerveja para a praça. O professor local de canto está cantando. Os zumbis dizem: “Época maravilhosa! Lindo dia! Cantar Maravilhoso! Excelente cerveja! Será que a mulher quer se casar comigo? Eu não sei!”. Com um vento forte, as folhas caem das árvores, das árvores.

O herói dos zumbis Gris Grue disse: “Há bons e maus zumbis, assim como há bons e maus homens”. Gris Grue disse que muitos dos zumbis que ele conheceu eram claramente zumbis do tipo antigo e, portanto, eminentemente adequados, na sua opinião, para exercer o comércio, comandar empresas, ter importantes cargos no governo e participar dos mistérios do Batismo, Confirmação, Ordenação, Matrimônio, Penitência, Eucaristia e Extrema Unção. O bispo disse não. Os zumbis enviaram muitas cabeças de gado para o bispo. O bispo disse: tudo menos Ordenação.

Se um zumbi mau pegar você, ele irá criar tumulto em sua bexiga. Os zumbis maus destruíram o carro do bispo com uma vaca morta à noite. De manhã, o bispo teve que empurrar a vaca morta de volta pelo pára-brisa e cortou a mão. Gris Grue decide quem é um zumbi bom e quem é um zumbi mau, quando ele está ausente, sua sogra decide. Um zumbi avança para um grupo de finas filhas que estão florescendo e descreve, com muitos movimentos das mãos e dos braços, os cafés da manhã que podem esperar na casa de um zumbi.

“Segunda-feira!”, diz ele. “Laranjas fatiadas bolinhos de aveia cozidos rãs fritas rabanetes batata agrião salpicão de frango grelhado primavera bolos manteiga xarope (vou usar xarope, mas é syrup) e café com leite! Terça-feira! Passas com filé grelhado batatas fritas aipo rolinhos frescos manteiga e café com leite! Quarta-feira! Figos gelados Pargo à milanesa com molho tártaro batatas chips presunto cozido ovos mexidos torrada francesa e café com leite! quinta-feira! Bananas com creme de aveia patassas (peixe minúsculo da América do Norte. O nome é de origem indiana) fígado frito com bacon ovos cozidos com torradas waffles com xarope e café com leite! sexta-feira! Morangos com creme de ostras na torrada aipo frito perca à lyonnaise pão de batatas com calda e café com leite! sábado Melão gelado com grãos de aveia cozidos omelete com ervas e tripas azeitonas picadas bolos com calda e café com leite! ” O zumbi dá um longo suspiro. “Domingo!”, diz ele. “Pêssegos e creme de aveia amassada com leite espanhol fervido cavala grelhada com molho de maitre d’hotel cremoso biscoitos batidos de frango grelhado galinhola bolos ingleses de arroz batatas à La duchese ovos Benedict ostras em meia concha assadas costeletas de carneiro com bolo calda e café com leite! E champagne importado!” Os zumbis olham ansiosamente para as mulheres, para ver se a proposta agrada.

Uma sacerdotisa vodu (criadora de zumbis) agarra um homem pelos cabelos e força seus lábios até próximo da boca de um gato agonizante. Se você fizer o trabalho pesado para uma delas por dez anos, então está livre, mas continua um zumbi. O carro do Bispo voltou a funcionar bem. Nenhuma filha desta aldeia jamais tem na memória um verdadeiro marido ou algo parecido. As filhas estão cansadas de beijar umas às outras, embora algumas não. Os pais da aldeia estão cansados de pagar pelas máquinas de costura, cômodas e toalhas das filhas. Um zumbi careca diz: “Oh, que moça bonita! Eu seria bom para ela! Sim, eu seria! Eu acho!” Zumbis maus estão encostados às paredes dos edifícios, observando. Zumbis maus podem, por lei, apenas acasalar com carrapatos de ovelhas. As mulheres não querem os zumbis, mas zumbis são o que lhes cabe. Uma mulher diz a outra mulher: “Esses caras são zumbis!” “Sim”, diz a segunda mulher: “Eu vi um homem bonito, sua foto saiu no jornal, mas ele não está aqui”. O zumbi no curral encontra-se a uma temperatura de cento e dez graus.

Os aldeões batem em tambores enormes com esfregões. O bispo chega em seu grande carro com bandeiras brancas episcopais tremulando nos pára-lamas direito e esquerdo. “Proibido, proibido, proibido!”, ele grita. Gris Grue aparece em um trenó prateado e cobre os olhos do bispo com as mãos. No momento do pôr do sol, casais, dois a dois, são casados. O curral estremece enquanto o gado desfalece. As novas esposas se viram para seus maridos e dizem: “Não importa. Isto é o que nós devemos fazer. Nós vamos colar fotografias do homem bonito em seus rostos quando for a hora de ir para a cama. Agora vamos cortar o bolo”. Os bons zumbis dizem, “Vocês são bem-vindas! Vocês são muito bem-vindas! Eu acho que sim! Sem dúvida!” Os zumbis maus escondem carrapatos de ovelhas nas ouvidos do Bispo. Se um zumbi mau pegar você, ele vai machucar sua pele com cinzéis e ancinhos. Se um zumbi mau pegar você, ele vai fazer você passar ao lado de um belo par de seios sem nem perceber.

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I just dropped in…

December 18, 2009 · Leave a Comment

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Kurt Vonnegut está escrevendo

December 10, 2009 · Leave a Comment

Ele reescrevia e reescrevia e reescrevia, resmungando sem parar o que quer que tivesse acabado de escrever, inclinando a cabeça para a frente e para trás, gesticulando, mudando o tom e o ritmo das palavras. Então fazia uma pausa, pensava bem e arrancava da máquina a folha em que mal escrevera algo, amassava, jogava fora e começava de novo. Parecia estranho um adulto passar o tempo daquele jeito, mas eu era só uma criança.

(…)

Quando escrevia, Kurt estava dando inícioa uma missão. Ele sabia, porque havia acontecido antes, que se conseguisse se manter em atividade poderia esbarrar em algo interessante, que então moldaria e imprimiria sua marca. Por mais vezes em que isso tenha acontecido não tinha muito autoconfiança. Preocupava-se que cada boa idéia pudesse ser a última e que qualquer sucesso aparente fosse fogo de palha.

Preocupava-se em ter pernas finas e não ser um bom jogador de tênis.

Tinha dificuldade em se permitir ser feliz, mas mal disfarçava a alegria que sentia por escrever bem.

Os períodos mais infelizes de sua vida eram aqueles meses e às vezes um ano inteiro em que não conseguia escrever, em que estava “bloqueado”. Tentava de tudo para se desbloquear, mas ficava muito inquieto e desconfiado quando o assunto era a psiquiatria. Uma vez deixou escapar, eu tinha vinte e poucos anos, que tinha medo de que a terapia pudesse deixá-lo normal e equilibrado e que isso terminaria com sua vida de escritor. Tentei convencê-lo de que os psiquiatras estavam longe de serem tão bons assim.

(…)

Em meados de 1950 foi contratado pela Sports Illustrated por um breve período. Compareceu ao trabalho e recebeu a solicitação de escrever um pequeno texto sobre um cavalo de corrida que havia saltado sobre a cerca e tentado fugir. Kurt Vonnegut ficou encarando o papel em branco a manhã inteira e então datilografou “O cavalo saltou sobre a porra da cerca” e saiu, novamente autônomo.

(…)

Ele era como um extrovertido que queria ser um introvertido, um cara muito sociável que queria ser um solitário, um sujeito de sorte que preferia ter sido um azarado. Um otimista posando de pessimista na esperança de que as pessoas prestassem atenção.

(…)

Ler e escrever são em si atos subervisos. O que subvertem é a noção de que as coisas precisam ser como são, de que estamos sozinhos, de que ninguém jamais se sentiu como nos sentimos. O mundo se torna um pouco diferente simplesmente porque elas (as pessoas) leram um bendito livro.

MARK VONNEGUT, filho dele, em Armagedom em retrospecto.

→ Leave a CommentCategories: literatura

Filho do mar

December 8, 2009 · Leave a Comment

Uma coisa que não me avisaram um ano atrás foi que embarcar em um grande navio tem uma consequência: filas. Para chegar ao Norwegian Sun, foram quatro de centenas de pessoas – despacho das malas, primeiro check-in, segundo check-in e passagem pela Alfândega. No total, três horas e pouco em galpões desconfortáveis e calorentos, onde perdi os óculos escuros ao deixá-los em cima de um balcão enquanto preenchia um formulário. Como consequência, ao procurá-los na recepção do navio, me deparei com uma gaveta cheia de óculos perdidos. Os meus não estavam lá.

Há uma excitação geral, apesar do cansaço e da perplexidade dos estrangeiros, americanos e europeus, principalmente, com o desconforto. O porto de Buenos Aires é arcaico.

Chega-se ao navio de ônibus. Pela primeira vez, ao descer, dei de cara com aquela monstruosidade em toda a sua feiúra externa.

Todos os passageiros recebem na cabine um formulário em que podem elogiar ou reclamar de um funcionário ou camareiro. Um dos meus prediletos era Devon, sempre com um casaco vermelho com galões – em geral, os funcionários do restaurante usam camisas floridas -, porque era velho. Quase todo mundo na tripulação era jovem. Devon tinha 55 anos pelo menos. Os cabelos e o bigode grisalhos.

Devon, jamaicano, me serviu waffles por doze dias, desde que o descobri no bar dos fundos no café da manhã. No último dia, pedi seu nome completo para elogiá-lo no tal formulário. Tinha ouvido que eles são contratados por períodos de apenas oito meses. Ficam depois mais quatro desempregados e então precisam de um bom desempenho para serem contratados de novo. Elogios contam a favor. É alta a rotatividade no ramo.

Devon me deu um pequeno pedaço de papel amarelo, timbrado do navio. Escreveu seu nome e ao lado, “filho do mar”.

O relato da viagem aqui.

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Segunda

December 4, 2009 · Leave a Comment

Estarei na platéia.

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Munch se inspira

November 29, 2009 · Leave a Comment

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Jodorovsky para principiantes

November 27, 2009 · Leave a Comment

Nasci na Bolívia, de pais russos, vivi no Chile, trabalhei em Paris, fui parceiro de Marcel Marceau, fundei o movimento ‘Pânico’ com Fernando Arrabal, dirigi 100 peças no México, fiz o roteiro de uma tira de quadrinhos, dirigi El Topo e agora vivo nos Estados Unidos – não sendo bem aceito em nenhum lugar porque na Bolívia eu era um russo; no Chile, um judeu; em Paris, um chileno; no México, um francês e agora, nos Estados Unidos, eu sou um mexicano“.

(autobiografia)

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Louis Theroux vai ao café

November 26, 2009 · Leave a Comment

Acabo de ir pegar um café. O Louis Theroux tava atrás de mim na fila, comprando chá pra alguma mulher que veio visitar ele pra alguma coisa (ela tava sentada em uma mesa, e ele ficava perguntando pra ela “how’s your hotel?”)

Ele não para de falar. E ele fala de um jeito meio autista, com perguntas hiper-educadas e curtas. Disse que hoje tava se sentindo “a little bit under the weather” (“meio mal”) e meio “radioactive” (não faço ideia do que seja isso).

Ele anota recados nas mãos. Tava escrito na esquerda: “David DVD” Mas acho que ele já cumpriu a tarefa, porque tava riscado.

Depois no café, eu tentei ouvir um pouco o papo deles, já que eu tava na mesa do lado, mas era muito chato (ele repetia toda a hora “the industry! the industry!”, seja lá o que era isso).

(e-mail recebido hoje de amigo que trabalha na BBC, em Londres)

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November 25, 2009 · Leave a Comment

De novo uma parada. Devia estar incrivelmente magro. De tão encovados, os olhos pareciam querer entrar pela cabeça adentro. Tinha o ar do que? É o diabo, a gente ir se deixando desfigurar, vivo, unicamente por obra da fome. Senti a cólera invadir-me uma vez mais; era a última chama, o último espasmo. Valha-me Deus! mas que cara, hein? Era dotado de uma cabeça que não tinha igual no país; de dois punhos que, com seiscentos diabos! podiam esmagar e reduzir a pó de traque um estivador; pois apesar disso, em plena cidade de Cristiânia, jejuava a ponto de perder a figura humana! Então isso tinha sentido, isso se harmonizava com a ordem natural das coisas? Exigira tudo de mim, esfalfara-me dia e noite, como o burrinho a carregar o pastor, estudara a ponto de fazer os olhos me saltarem do crânio, jejuara a ponto de fazer a razão saltar-me do cérebro. E o que diabo recebia em troca? Até as meretrizes pediam a Deus que lhes poupasse a visão do meu rosto.

(FOME – Knut Hamsun).

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O fim da decadência

November 25, 2009 · Leave a Comment

E então ele comprou um terno.

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Os Massa

November 23, 2009 · Leave a Comment

Vem Delícia ao vivo.

Jekyll, Porto Alegre, 6 de setembro de 2005.

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Perfil egípcio

November 20, 2009 · Leave a Comment

Com Marcelino Freire, Joca Terron e Alan Sieber durante o De Modo Geral, ontem à noite. A foto é de Ivana Arruda Leite.

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Love # 29

November 11, 2009 · 1 Comment

estava sentado em um banco de madeira lendo uma revista de 1987 quando ela passou. em teoria, devia ser jovem demais para despertar sua atenção, que dividia com uma revista feminina de décadas atrás que não tinha certeza como fora parar em suas mãos. lia até então a respeito da nova mulher – de 1987 – e o que esperava dos homens de agora – aquele tempo – em diante. de acordo com o artigo, algumas cantadas deviam ser evitadas a qualquer custo. “e aí, tamos nessas carnes?” vinha em primeiro lugar. o fato de viver em um mundo onde um dia foi perfeitamente lógico que homens tenham raciocinado que dizer “e aí, tamos nessas carnes?” era a maneira mais efetiva de chegar à cama de uma mulher ou levar uma mulher para a sua cama, sem desprezar as camas ocasionais, que não eram nem de um e nem do outro, era reconfortante. um sinal de normalidade. de certa forma se sentia bastante encaixado no estado de coisas geral, nem um pouco imoral enquanto a seguia com o olhar pelo corredor. ela parou por um instante, curvou-se sobre o bebedouro. o tecido do jeans apertou-a na altura das coxas. o formato da bunda revelou-se por inteiro. deus do céu, precisava falar com ela!

*****

estava tocando blood on the tracks quando vera se levantou do computador e foi até a beira da cama, onde ele fumava um cigarro. “precisamos conversar”, ela disse. ele já sabia do que se travava, respondeu “ok”, dando a deixa para ela começar. mas ela não começou. a necessidade de terminar com aquilo, ele se deu conta, o inferno pessoal no que se transformou aquela relação não bastava para olhá-lo nos olhos, para se despedir e ir embora, simplesmente. em um sofrimento compartilhado, o abandono era uma forma de traição. “acho que precisamos viajar”, disse apenas. ele respondeu perguntando: “precisamos?” ela respondeu: “é precisamos”. ele perguntou: “quando?” ela: “no próximo fim de semana”. ele: “no próximo fim de semana não posso. tenho que dar um seminário em caxias do sul”. ela: “porra, dá um jeito. que tal no outro?” ele: ”no outro eu posso”. ela: “então no outro que seja. (em tom de leve desespero) não quero me separar”. ele: “também não”. antes que começassem a chorar juntos ela pediu um cigarro, ele carinhosamente acionou o isqueiro e, inalando uma bela quantidade de fumaça, abafou suas ansiedades.

→ 1 CommentCategories: Insanidade

Ninguém abre um livro como Pynchon

November 9, 2009 · Leave a Comment

Na véspera do Natal de 1955, Benny Profane, usando jeans preto, blusão de camurça, tênis e um chapelão de vaqueiro, passava casualmente por Norfolk, Virgínia. Dado a impulsos sentimentais, pensou em ir lançar uma olhada na Sailor´s Grave, seu velho boteco na East Main Stret. Chegou até lá passando pela Arcade, em cuja extremidade do lado de East Main sentava-se um velho cantor ambulante com um violão e uma lata vazia do lado, onde recolhia as doações. Na rua, um intendente da Marinha tentava urinar dentro de um tanque de gasolina de um Packard 54, cercado por cinco ou seis aprendizes de marinheiro que o encorajavam. O velho cantava com uma bela voz de barítono.

V.

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Cortázar se inspira

November 9, 2009 · 1 Comment

Liniers irretocável.

→ 1 CommentCategories: Insanidade