# 5

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# 4

 

 

 

 

 

 

 

 

A cozinheira contratada para o verão era uma polonesa
chamada Ana Ostrovick. Era excelente – uma mulher
grandalhona, gorda, calorosa e trabalhadeira que levava
a sério o seu ofício. Gostava de cozinhar e de saber que
a comida feita por ela era apreciada e consumida. Estava
sempre nos incitando a comer alguma coisa. Preparava pão
quente – brioches e croissants – para o café da manhã
duas ou três vezes por semana e, ao trazê-los para a
sala de jantar, dizia: “Comam, comam, comam”. Quando a
arrumadeira levava as travessas de volta para a copa, às
vezes ouvíamos Anna dizer: “Ah, muito bem, eles comeram!”
Dava de comer ao lixeiro, ao leiteiro e ao jardineiro.
“Comam”, ela lhes dizia. “Comam, comam!” Nas tardes de
quinta-feira, ia com a arrumadeira ao cinema, mas não
gostava dos filmes porque os atores eram magros demais.
Ficava sentada na sala às escuras durante uma hora e meia
observando a tela com ansiedade para ver se alguém havia
gostado do que comera. Bette Davis deixou-lhe apenas a
impressão de que se alimentava mal. “Eles são todos
magricelas”, comentava ao sair do cinema. À noite, depois
de nos empanturrar e lavar as panelas, ela recolhia as
sobras da mesa para ir alimentar as aves e os animais
silvestres. Naquele ano tínhamos algumas galinhas e,
embora àquela altura elas já tivessem se instalado
nos poleiros, Anna enchia as gamelas e incitava as aves
adormecidas a comer. Alimentava os pássaros no pomar
e os esquilos no quintal. Sua figura na beira do jardim e
sua voz peremptória – podíamos ouvi-la dizendo “Comam,
comam, comam” –, juntamente com as cores do poente no
clube náutico e o acender das luzes do farol do cabo Heron,
passaram a simbolizar aquela hora do dia.

(John Cheever – Adeus, meu irmão)

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# 3


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#2

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# 1

As três mulheres já passaram dos cinquenta. Uma é morena, as outras louras. Caminham com tênis novos e roupas elegantes de ginástica. Caminham rápido e lado a lado. Quando encontram alguém pelo caminho, uma dá um pequeno trote por um lado, as restantes passam do outro, retomando a formação mas adiante. Não se dão conta ou não se importam que, agindo assim, bloqueiam o caminho de cada corredor ou cada pessoa que vai atrás delas, obrigada a correr pelo gramado. Está escuro.

- Tenho que achar o banana – uma delas comenta.

- Ele está aí?

- Está correndo com meu outro parceiro.

Risadas.

- Ele sabe?

- Desconfia. Mas nem se importa. Esse aí…

- Situação maluca.

- É.

- Meu banana… – uma voz filosofa.

Mais risadas. As três começam a correr.

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nicho megaordinário

Do Dinâmica do Bruto.

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A maior cena de espancamento já escrita

Em seguida Azazello apanhou o passaporte do chão e o entregou a Maximilian Andreyevich. Depois, segurando a pasta com a mão esquerda, abriu a porta com a direita e, pegando o tio de Berlioz pelo braço, o levou até o patamar da escada, onde Poplavsky se encostou na parede. Sem usar chave, Azazello abriu a pasta, tirou um enorme frango assado e o colocou no chão. Depois esvaziou-a dos demais pertences e os atirou escada abaixo, acompanhados da pasta vazia, que, pelo barulho, devia ter perdido a tampa. Azazello apanhou o frango pelas pernas e deu um golpe tão forte no pescoço de Poplavsky que a carcaça saltou longe. Em seguida, devorou as pernas do frango que lhe ficaram na mão, enfiou os ossos no bolso, voltou para o apartamento e bateu ruidosamente a porta.

Mikhail Bulgakov – O MESTRE E MARGARITA.

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Em SP

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Questão de fé

Estava na minha caixa do correio três horas atrás.

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Mais uma palavra do nosso candidato

Antoninho, o Tímido, também acha uma vergonha estes escândalos todos na política.

Caso eleito, promete lutar para moralizar a situação geral.

Só tem medo que pensem que quer aparecer.

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E agora a propaganda eleitoral

Antoninho, o Tímido, lança sua candidatura nestas eleições.

De trás desta árvore, ele vem pedir o seu voto.

Alguém sugeriu que devia falar com os eleitores, mas Antoninho tem vergonha de incomodar.

* A árvore é de Diego Spagnuelo, do Trombone.

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Camiseta

Stuff no-one told me.

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O que acontecia quando Bolaño recebia uma crítica

Cada vez que leio que alguém fala mal de mim, começo a chorar, arrasto pelo chão, me lanho todo, deixo de escrever por um tempo indefinido, o apetite diminui, fumo menos, pratico esporte, saio caminhando pela praia, que, entre parênteses, fica a menos de trinta metros de minha casa, e pergunto às gaivotas, cujos antepassados comeram os peixes que comeram Ulisses, por que eu, por que eu, que nenhum mal lhes fiz?

Do Dicionário Bolaño no blog de Joca Reiners Terron.

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Muhammad Ali ensina a viver

Talvez toda doença resulte de uma falha de comunicação entre a mente e o corpo. Isso é certamente verdadeiro em uma doença tão rápida quanto o nocaute. A mente não consegue mais transmitir uma palavra sequer aos membros. O extremo dessa teoria, exposta por Cus D´Amato quando treinava Floyd Patterson, é que um pugilista com desejo autêntico de vencer não pode ser nocauteado. (…) O soco pode machucar, mas não é capaz de liquidá-lo.

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Hoje em dia é como se Muhammad Ali levasse essa idéia a algum lugar avançado, onde pudesse assimilar socos mais depressa do que os outros lutadores, onde pudesse literalmente transmitir o choque através de uma quantidade maior de partes do corpo ou dirigi-lo para o melhor traçado, como se estivesse trabalhando em busca da habilidade de receber aquela combinação de cinco (ou seis ou sete!) golpes e ainda assim estar pronto para enviar o impacto para cada braço, cada órgão, cada perna, de modo que o castigo pudesse ser digerido e a mente mantida clara. Observar Ali tomar socos era um aprendizado. Ele se deitava nas cordas e jabeava em direção ao sparring como uma gata que afasta seus gatinhos.

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Ali estudava todo o tempo como amortecer tais choques ou como castigar a luva que o transmitia, sempre elaborando sua compreensão íntima de como neutralizar, enfraquecer, modificar, enganar, encurvar, desviar, distorcer, defletir, inclinar e cancelar as bombas atiradas contra ele e fazê-lo com um mínimo de movimento, deitado nas cordas, as mãos erguidas languidamente. Invariavelmente treinava em um cenário que o mostrava fatigado ao extremo, cansado demais para erguer os braços no décimo segundo assalto de uma luta de quinze.

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De seu corner, gritavam-lhe “Pare de brincar”. Os jurados descontavam-lhe pontos por deitar nas cordas, os comentaristas escreviam que ele não parecia o velho Ali e o tempo todo o que ele fazia era refinar métodos.

Norman Mailer – A LUTA.

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Maturidade para principiantes

No café do McDonald´s perto do trabalho que freqüento desde o verão, se reúne um grupo de velhos. Os velhos do café do McDonald´s costumam passar lá a tarde, ocupando quase sempre as quatro mesas que ficam em frente à vitrine. Conversam. Falam sobre tudo. Sobre a existência, os jovens, a suposta falta de princípios e de educação dos jovens, a solidão, a velhice.

O café está sempre cheio, mas os velhos nunca são perturbados. Estão sempre em quatro ou cinco. Há três que se repetem. Outros aparecem de vez em quando. Só um deles usa os cabelos pintados. Só um deles usa tênis.

Só sei o nome de um deles: é o Poeta João. O Poeta João é um careca-cabeludo meio assustador. Sempre carrega um caderno. Às vezes senta-se em outra parte da lanchonete, separado dos outros, escrevendo. Sei seu nome porque um dia uma mulher muito bonita adentou o café perguntando:

- O Poeta João? Você viu o Poeta João? É bonito e se veste bem.

Os velhos do McDonald´s costumam buscar inspiração na rua. Olham a rua e comentam o que acontece. Às vezes parecem que estão no Twitter, cada um dando a própria opinião sem muita interação com o que os outros estão dizendo.

Hoje tiveram o melhor de todos os diálogos. Sobre a passagem do tempo.

Velho 1 (cabelos pintados): – Naquela época era tudo distorcido.

Velho 2: – Distorcidas.

Velho 3: – Antigamente era proibido suar. Lembram?

Velho 2: – Era.

Velho 1: – Tinha que usar aquela camisa de física por baixo. Um suadouro.

Velho 3: – Diziam para ficar andando no vento.

Velho 1: – E tinha que tomar purgante. Já deixava pronto um copo de suco de laranja ou de limão para tomar junto. Agora dão purgante que a criança até gosta.

Velho 2: – Uma vez eu levava para casa um litro de querosene (tinha que carregar pendurado no barbante) para casa. Tinha tomado purgante. Inventou de descer tudo.

Velho 3: – Capivarol era feito de capivara?

Velho 1 cantarola o jingle do remédio Phymatosan.

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